15 anos
Quintana, o poeta das coisas simples
Leidiane Montfort Da Redação A Gazeta
Já nem penso mais em ti. Mas será que nunca deixo de lembrar que te esqueci? O poema do gaúcho de Alegrete, Mário Quintana fala da dificuldade de esquecer alguém especial. Nada mais oportuno para a data de hoje. Há exatos quinze anos morria o inesquecível poeta das coisas simples. No entanto sua obra permanece imortal e fecunda a cada dia, a ponto de aumentar a admiração e respeito pelo trabalho belo e único do escritor.
Lembrar a morte de Quintana pode ser teimosia, uma vez que o próprio autor desprezava a morte. Para ele morrer era uma espécie de libertação total. "A morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos". Com um estilo marcado pela ironia, pelo cuidado com a forma e estrutura física dos poemas e pela criatividade quase infantil Mário conquistou e ainda conquista admiradores por sua qualidade e talento únicos.
Filho de um farmacêutico e uma dona-de-casa, Mário Quintana aprendeu a ler com os pais aos sete anos, no lugar da cartilha ele foi alfabetizado lendo o jornal Correio do Povo. O escritor que além da ironia ficou conhecido pelo estilo perseguidor da profundidade e perfeição técnica, trabalhou como jornalista quase que a sua vida toda.
Foi ainda tradutor dos mais respeitados da literatura brasileira, foi o responsável por traduzir mais de 130 obras universais, entre elas clássicos como Em busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, Mrs. Dalloway de Virginia Woolf, e Palavras e Sangue, de Giovanni Papini.
Em 1940 ele lançou o seu primeiro livro de poesias com o título de A Rua dos Cataventos, iniciando a sua carreira de poeta, escritor e autor infantil. Depois veio Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Batalhão de Letras (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Espelho Mágico (1951), Inéditos e Esparsos (1953), Antologia Poética (1966), Pé de Pilão (1968) - literatura infanto-juvenil, Caderno H (1973) e muitos outros, totalizando 36 obras em português fora as traduções feitas por ele e as traduções de suas obras no exterior.
Em 1966 foi publicada a sua Antologia poética, com 60 poemas inéditos, organizada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, e lançada para comemorar seus 60 anos, sendo por esta razão o poeta saudado na Academia Brasileira de Letras por Augusto Meyer e Manuel Bandeira. No mesmo ano Quintana ganhou o Prêmio Fernando Chinaglia da União Brasileira de Escritores de melhor livro do ano. Em 1980 recebeu o prêmio Machado de Assis, da ABL, pelo conjunto da obra.
Briga com a Academia- O poeta tentou por três vezes uma vaga na Academia Brasileira de Letras, mas em nenhuma das ocasiões foi escolhido. As razões eleitorais da instituição não lhe permitiram alcançar os vinte votos necessários para ter direito a uma cadeira. Quando então foi convidado a se candidatar pela quarta vez, com a promessa de unanimidade em torno de seu nome, o poeta recusou e explicou os motivos. "Só atrapalha a criatividade. O camarada lá vive sob pressões para dar voto, discurso para celebridades. É pena que a casa fundada por Machado de Assis esteja hoje tão politizada. Só dá ministro", criticou Quintana.
O poeta - Quando foi solicitado que falasse sobre si escreveu em uma carta o seguinte. "Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas. Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.
Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?".
terça-feira, 7 de julho de 2009
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