terça-feira, 7 de julho de 2009

Ariano Suassuna: O escritor da esperança
Homem das letras e dos verbos, o paraibano Suassuna completa hoje 82 anos

Completa 82 anos de vida hoje o talentoso teatrólogo, romancista e escritor paraibano Ariano Suassuna, um dos mais fortes expoentes da literatura erudita e popular brasileira que junto com outros nomes de sociólogos, estudiosos de literatura e historiadores como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Antônio Cândido nutre o desejo latente de "explicar o Brasil" por meio de suas obras. "Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa".

O esforço em gerar um sentido de brasilidade faz com que Suassuna finque sua pena no serviço de mostrar a árdua vida de grande parte dos nordestinos desse país. Em suas obras há sempre uma forte carga de crítica social à realidade dos mais pobres, que apesar de sua situação fragilizada são apresentados como fortes, criativos e otimistas.

Ariano Suassuna nasceu em Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa, na Paraíba no ano de 1927. Com apenas três anos de idade perdeu o pai, que governava o Estado, vítima de assassinato no Rio de Janeiro às vésperas da Revolução de 30. Ainda em Taperoá, a família de Ariano soube da morte que ocorreu dentro da cadeia de eventos ligados à morte de João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, e por essa razão sua família precisou fazer várias peregrinações para diferentes cidades, para escapar de represálias dos opositores ao seu pai.

Esse nomadismo forçado fez com que nele se enraizasse o sentimento de "Brasil nordestino". A infância passada no sertão familiarizou o dramaturgo com os temas com o seu "mundo mítico". Não apenas as estórias e casos narrados e cantados em prosa e verso foram aproveitados mas também as próprias formas da narrativa oral e da poesia sertaneja foram assimiladas. Assim criou o Movimento Armorial que visava criar um arte erudita a partir de elementos da cultura popular.

As obras de Ariano Suassuna já foram traduzidas para inglês, francês, espanhol, alemão, holandês, italiano e polonês. Desde 1990 ele ocupa a cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono é Manuel José de Araújo Porto Alegre, o barão de Santo Ângelo. Em 2002, Ariano Suassuna foi tema de enredo do Império Serrano, no carnaval carioca e em 2008 foi novamente escolhido para essa função, mas pela escola de samba Mancha Verde no carnaval paulista.

Em 2007, às vésperas de completar 80 anos, Suassuna declarou em uma das inúmeras entrevistas ao ser questinado sobre a morte. "Eu digo sempre que tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver".

Auto da Compadecida- De todas as obras do escritor a que lhe rendeu maior repercussão é sem dúvida, Auto da Compadecida, uma peça de de teatro em forma de auto, em três atos escrita e em 1955. Trata-se de uma comédia do Nordeste do Brasil que insere elementos da tradição da literatura de cordel, demonstra traços do catolicismo, une cultura popular e erudita com a tradição religiosa. O texto teatral que posteriormente foi adaptado para o cinema em uma produção de Guel Arraes aborda assuntos de natureza universal como a avareza e suas duras conseqüências, além do jeitinho brasileiro"para resolver os problemas.

A imagem do povo nordestino é forte na obra do autor, mas precisa ser vista com cautela e criticidade na visão do professor com doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e um dos fundadores dos cursos de mestrado em Estudos de Linguagem da UFMT e também do mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea (Ecco) da mesma instituição, Mário Cezar Silva Leite.

"O personagem João Grilo, por exemplo, é uma figura típica da literatura de cordel, chamada Amarelinha, que sobrevive de malandragens. Embora existam pessoas que se encaixem nesse perfil, é importante dizer que pensar o povo nordestino sob este aspecto é generalizar demasiadamente. Este é um recorte estereotipado que busca o apelo popular por meio do humor. Mas nem por isso tira o mérito do escritor".

O professor aponta que os textos de Ariano são, na maioria das vezes, resultados de fórmulas e modelos prédefinidos que se mostraram sucesso anteriormente. O estudioso ressalta a relevância de Ariano para a literatura brasileira, principalmente em relação à dramaturgia. "Suassuna é um escritor de grande importância, de forte qualidade erudita e popular que tem um repertório comum com o mundo da literatura de cordel (dicotomia Deus x Diabo) em conjunto com diálogos com releitura de clássicos universais. Ariano escreve de uma forma que poucos conseguem, além de ter uma postura ideológica bem definida no viés da cultura popular. Isso tudo faz dele um teatrólogo diferenciado dos demais".

Ariano Suassuna precisa ser redescoberto nos livros, defende o professor. "Ele é muito conhecido pelas adaptações de suas obras, nem tanto pela leitura. Claro que as adaptações são muito boas porque divulgam a produção da literatura de boa qualidade e o autor, mas as discussões sobre os textos do escritor ainda são poucas e seria interessante que se multiplicassem nas escolas e universidades".

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