Bossa Nova
20 anos sem Nara Leão
Dona de uma voz suave e discreta, nadou contra maré, comprou briga com militares e se engajou na luta por justiça social
A voz feminina da bossa nova cessava seu canto a exatos vinte anos. Foi no dia 07 de junho de 1989 que morria aos 47 anos a talentosa Nara Leão. Sua morte criou um espectro em que se iniciaram movimentos para entender a relevância artística e política de uma intérprete tão popular de opiniões fortes e polêmicas que constatavam com a aparência frágil e romântica.
"Os militares podem entender de canhão e metralhadora, mas não pescam nada de política". Foi com essa frase dita no conturbado show Opinião que Nara Leão alcançou o sucesso e a popularidade no mundo da música. Ela foi, talvez, a primeira cantora a incorporar ao seu canto, um repertório de convocação política à resistência democrática recém iniciada no Brasil, alguns meses depois do golpe.
Nara estreou profissionalmente no musical de Vinícius de Morais e Carlos Lyra, intitulado Pobre Menina Rica. Mas em 1964 Nara surpreendeu o mundo artístico brasileiro com seu primeiro disco, em que resgatou o samba de morro e ainda lançou e relançou sambistas de raiz, como os incríveis Cartola, Nelson Cavaquinho, a velha guarda da Portela, entre outros. Ao contrário do que sua figura romântica poderia passar, ela não exaltava o amor, flores ou sorrisos. As canções presentes no disco eram engajadas com temáticas da realidade brasileira daquele período. "Cada disco dela era uma surpresa para todo mundo", opina o pesquisador da vida da cantora, Sérgio Cabral, que escreveu uma biografia sobre ela.
"Este disco nasceu de uma descoberta importante para mim: a de que a canção popular pode dar às pessoas algo mais que a distração e o deleite. A canção popular pode ajudá-las a compreender melhor o mundo onde vivem e a se identificarem num nível mais alto de compreensão", afirmou a cantora.
Todos esses esforços fizeram de Nara Leão a primeira cantora branca da chamada zona sul do Rio de Janeiro a valorizar e resgatar sambistas esquecidos. Por isso quando gravou o primeiro disco, o pessoal da bossa nova a acusou de trair o movimento que havia se fortalecido nas reuniões feitas no apartamento da casa dela. Nara não se contentava apenas com a Bossa, queria ir adiante, cantar músicas de várias origens, sem o repeteco da bossa nova, mas usando elementos dela.
A bossa era uma música com características muito específicas da zona sul do Rio, mas a música de Nara trazia o Nordeste, o samba do subúrbio carioca, outros ares. Assim acabaram sendo depois Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil.Nascia ali, com Nara e a sigla MPB, a era da canção de protesto.
Bela e forte- Nara carregou por anos o rótulo de musa da bossa nova. O biógrafo Cabral acredita que num primeiro momento a cantora não passasse de um mascote do movimento. Foi quando, ainda adolescente, passou a reunir em seu apartamento a nata daquela geração, Roberto Menescal, Carlos Lyra, Sérgio Mendes e Ronaldo Bôscoli, entre outros, em torno de longas noites de voz, violão e bossa. "No começo o pessoal não acreditava muito nela, e ela própria tinha dúvidas sobre isso", aponta o escritor.
Seis anos após a explosão da bossa nova, Nara rompeu com o movimento, chegando a inclusive se posicionar contra ele. Em 1966, interpretou a canção A Banda, de Chico Buarque no Festival de Música Popular Brasileira (TV Record), que ganhou o festival e público brasileiro. Nara também aderiu ao movimento tropicalista, tendo participado do disco-manifesto do movimento - Tropicália ou Panis et Circensis, lançado em 1968.
"O fato de apoiar todos os movimentos, desde que fossem bons, fez com que eu reunisse o maior repertório do Brasil. As pessoas podem ter discutido se eu canto ou não canto, se gostam ou não gostam, mas têm que admitir que a minha falta de preconceito em relação aos movimentos fez com que eu gravasse coisas antigas, novas e de vanguarda", disse Nara certa vez.
A dona de voz suave e discreta mas que fez mais barulho do que todos os outros integrantes da bossa nova, ao se aproximar do samba, nadou contra a maré e se engajou na luta por justiça social, tendo como principal arma, a música. Depois do golpe militar, Nara troca farpas com os militares, chegando quase a ser enquadrada na lei de segurança Nacional. Porque quando o assunto era oposição, não se tratava de eufemismos. Um dos ápices da biografia de Nara Leão veio quando em uma entrevista ela defendeu a saída dos militares do poder e para colocar mais pólvora na fogueira pediu a extinção das Forças Armadas no Brasil. T
Tamanhos feitos renderam uma séria ameaça de prisão à cantora. Ela foi perseguida a ponto de fazer com que dezenas de intelectuais brasileiros fossem em procissão para sua casa, lhe prestar apoio. O poeta Carlos Drummond de Andrade foi ainda mais longe. Ele escreveu uma carta em forma de poema endereçado ao presidente, o Marechal Castelo Branco. (ver box)
Nara Leão morreu na manhã de 7 de junho de 1989 vítima de um tumor inoperável aos 47 anos de idade. Seu último disco foi My foolish heart em que interpretava versões de clássicos americanos. O poeta Ferreira Gullar escreveu: "Sua voz quando ela canta, me lembra um pássaro mas não um pássaro cantando: lembra um pássaro voando".
terça-feira, 7 de julho de 2009
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